Por Clyde Russell

Os mineradores de carvão metalúrgico na Austrália, principal exportadora, enfrentam o dilema de equilibrar as expectativas de forte crescimento da demanda da Índia, principal compradora, com um sistema de impostos sobre royalties que consideram voraz e prejudicial ao investimento.

O combustível de alta qualidade, também conhecido como carvão metalúrgico, é usado na fabricação de aço, e a Austrália fornece cerca de metade do mercado marítimo global, com exportações de 148,4 milhões de toneladas métricas em 2025.

A demanda por carvão coqueificável deverá aumentar consideravelmente na próxima década, à medida que a Índia, que já compra cerca de um quarto do volume transportado por via marítima, aumenta massivamente sua produção de aço.

A previsão é de que a produção anual de aço da Índia mais que dobre, passando de 163 milhões de toneladas para cerca de 400 milhões de toneladas em 2035, à medida que o país do sul da Ásia se urbaniza e se industrializa.

O problema para a Índia é que, embora possua vastas reservas de carvão, quase nenhuma delas tem qualidade suficiente para ser usada na fabricação de aço, sendo que menos de 5% da produção atual é adequada para esse fim.

A Índia também planeja usar o método de alto-forno e forno de oxigênio básico, que demandam grande quantidade de carvão, para produzir aço, em vez de alternativas mais limpas, porém mais caras, como o minério de ferro de alta qualidade usado em fornos elétricos a arco.

Isso aumentará a dependência da Índia em relação ao carvão coqueificável nos próximos anos, e poucos países estão em melhor posição do que a Austrália para atender a essa demanda.

Os preços do carvão metalúrgico australiano têm sido voláteis nos últimos anos, atingindo um recorde de US$ 635 por tonelada após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, enquanto a interrupção do fornecimento devido a eventos climáticos na Austrália levou a oscilações acima de US$ 350 em 2023.

No entanto, eles têm se mantido relativamente estáveis desde meados de 2024 e apresentam uma leve alta desde que atingiram o nível mais alto em quatro anos, em março do ano passado, com os contratos da Bolsa de Valores de Cingapura (SCAFc1) fechando a US$ 242,00 na quarta-feira, um aumento em relação aos US$ 173,50 por tonelada em 24 de março do ano passado.

Os preços atuais tornam a produção de carvão metalúrgico na Austrália altamente lucrativa.

O Grupo BHP ASX:BHP, que, juntamente com seu parceiro Mitsubishi TSE:8058, é o maior exportador mundial de carvão metalúrgico, afirmou que espera que o custo unitário por tonelada em suas minas no estado de Queensland fique entre US$ 116 e US$ 128 no ano fiscal encerrado em 30 de junho.

Em seu relatório operacional referente aos nove meses encerrados em 31 de março, a BHP afirmou ter recebido um preço médio de US$ 200,12 por tonelada de carvão metalúrgico.

É provável que esse valor aumente ao longo do ano, considerando a recente alta nos preços, o que significa que a BHP provavelmente está lucrando mais de US$ 100 por tonelada com a produção atual.

AUMENTO DOS ROYALTIES

O problema para a maior empresa de mineração do mundo é que o governo do estado de Queensland aumentou as taxas de royalties do carvão em julho de 2022, adotando uma escala variável que começa em 7% para preços de até US$ 100 por tonelada e chega a 40% para preços acima de US$ 300.

O preço atual acarretaria um pagamento de royalties de 30% sobre o valor acima de US$ 225 por tonelada e de 20% sobre os preços entre US$ 175 e US$ 225.

A BHP e outras empresas de mineração afirmaram que as altas taxas de royalties dificultam a justificativa de novos investimentos em minas de carvão metalúrgico, e a empresa declarou que não investirá mais capital de crescimento em suas minas em Queensland.

Na prática, a BHP está dizendo que suas minas passarão por um processo que poderia ser descrito como declínio controlado, com investimentos de capital apenas para manutenção, até que o recurso se esgote.

Embora seja de se esperar que as empresas de mineração tomem decisões de investimento que considerem ser do interesse dos acionistas, a questão é o que realmente lhes interessa no que diz respeito ao carvão metalúrgico.

Se a Índia expandir sua produção de aço em 20 milhões de toneladas por ano nos próximos 10 anos, precisará de cerca de 15 milhões de toneladas adicionais de carvão coqueificável anualmente, sendo que a maior parte deverá vir de importações.

A Índia importou 83,17 milhões de toneladas de carvão metalúrgico em 2025, um aumento em relação aos 74,55 milhões de toneladas importadas em 2024, segundo dados da empresa de análise de commodities DBX Commodities.

Adicionar 15 milhões de toneladas por ano à demanda marítima na próxima década exerceria uma pressão enorme sobre o fornecimento global de carvão metalúrgico, mesmo que outros grandes importadores, como a China e o Japão, reduzissem suas importações ao adotarem métodos de produção de aço mais ecológicos.

Isso deixa mineradoras como a BHP com uma escolha interessante. Absorver os royalties mais altos, mas ainda obter margens robustas à medida que os preços do carvão metalúrgico sobem. Ou vender para outras empresas que enxergam o potencial da demanda por aço na Índia.

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As opiniões expressas aqui são do autor, colunista da Reuters.